segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A LITERATURA NO CURRÍCULO DO ENSINO MÉDIO: NECESSIDADE DE RESGATE

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Se, por e não sei que excesso de socialismo ou e barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto uma, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário. Roland Barthes, 1977, p. 90

Este artigo expõe o modo como o ensino da literatura teve início no Brasil, no século XVI, e mostra as mudanças ocorridas a partir da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio – PCNEM, que montaram o currículo de Língua Portuguesa na área de Linguagens e Códigos e suas Tecnologias

 As escolas direcionam o ensino 32 para o ENEM (Exame do Ensino Médio), que cobra cada vez menos literatura;

1- Algumas considerações sobre currículo e ensino da literatura no decorrer do tempo O currículo moderno surgiu nas escolas norte-americanas entre os séculos XVIII e XIX, por Franklin Bobbit, cujo livro The curriculum de Bobbit lançou as bases da teoria tradicional, que defendia a lógica da escola como a lógica da indústria, ou seja, focava o ensino na vida produtiva (que era o objetivo da modernidade). 

Já o pensamento do sociólogo educacional contemporâneo Michael Young defende a abordagem do currículo “baseada no conhecimento e na disciplina, e não baseada no aprendiz, como presume a ortodoxia atual” (YOUNG, 2010). 

O ensino da literatura no Brasil teve início no século XVI, com os padres Jesuítas, que a utilizavam com finalidades didáticas/catequéticas, bem como o faziam com o teatro e a música. A concepção deles era a europeia, ou seja a de ensinar literatura de acordo com a retórica e a poética, seguindo os modelos criados por Platão, Aristóteles e Horácio. Em meados do Século XIX, com o advento do Romantismo, esse modelo foi substituído pela História da Literatura. Como disciplina propriamente, a Literatura chegou às salas de aula brasileiras, no século XIX, através dos programas de ensino do Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, fundado em 1837

Ao longo do tempo, em salas de aula dos colégios, a Literatura foi trabalhada como uma disciplina adensada à Língua Portuguesa. Ora enfocavase a sua história, com periodização, características de estilos de épocas, nomes de autores e obras; ora se cobrava biografia de autores; ora se indicava leitura de livros, tantas vezes inadequados à idade do aluno, e cobravam-se fichas de leitura. As escolas arrumavam seus currículos de acordo com suas concepções pedagógicas.

Em 1999, começaram a ser publicados os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNEM), que “revelam a dificuldade de situar a literatura no contexto da linguagem e de fazer dela uma disciplina escolar. A principal perspectiva desta Lei (LDB n° 9.394/96) consiste em formar uma “escola média com identidade”, isto implica a formação de alunos preparados para viver o mundo atual. Mas o documento é tão vago quanto ao enfoque da literatura, que o próprio MEC, no Manual das Orientações Curriculares para o Ensino Médio, assim justifica o capítulo concernente aos ‘Conhecimentos de Literatura’: 34 As orientações que se seguem têm sua justificativa no fato de que os PCN do ensino médio, ao incorporarem na linguagem os conteúdos da Literatura, passaram ao largo dos debates que o ensino de tal disciplina vem suscitando, além de negar a ela a autonomia e a especificidade que lhe são devidas (2006, p. 49)

De fato, a orientações apontaram uma abordagem longe de um enfoque com informações sobre datas, estilos de época etc, mas no sentido de formar o leitor literário capaz do prazer estético. Segundo a proposta “[...] fazse necessário e urgente o letramento literário: empreender esforços no sentido de dotar o educando da capacidade de se apropriar da literatura” (2006, p. 55). Noutra passagem, fica claro que “[...] a Literatura como conteúdo curricular ganha contornos distintos conforme o nível de escolaridade dos leitores em formação” (2006, p. 60). Na prática, entretanto, o discurso dessas orientações parecem não ter se concretizado. No livro Guia de leituras para alunos de 1.º e 2.º graus, também encontraremos subsídios a respeito do assunto. É a autora dele, Maria da Glória Bordini, quem diz que A escola não permite a entrada no mundo dos livros de forma completa e sim cortando aos pedaços, como no livro didático. Ensina-se literatura para aprender gramática, para revisar a História, a Sociologia, a Psicologia e para redigir melhor. Tornando-se matéria para adornar outras ciências, o texto literário descaracteriza e afasta de si o leitor (BORDINI, 1989, p. 9). Desse modo, não se dá à literatura o espaço que lhe é devido, o que propicia distorções entre ela e o leitor. As consequências do erro de terem juntado o estudo da Literatura ao estudo das linguagens só agravaram a leitura do texto literário nos ensino fundamental e médio. Essa fusão, feita, na verdade, em 1943, e chancelada pelo PCN de 2002, acaba por implicar a não aprendizagem efetiva de nenhuma das áreas, pois, como assinala Coutinho: “O ensino da linguagem visa à capacidade de usar a língua como instrumento de comunicação, enquanto o da literatura pretende acentuar o aspecto estilístico e moral da obra e desenvolver hábitos não profissionais de leitura” (COUTINHO, 1952, p. 24-25).

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