Nova História Cultural - Representações

17/01/2022

A História Cultural: entre práticas e representações


Nota de Apresentação

Apresentar ao público português um livro de Roger Chartier implica uma reflexão preliminar sobre as condições da sua recepção.

Qual é o sentido das trocas entre as historiografias francesa e portuguesa nas últimas décadas?

Estudos relativos à época moderna, destacam-se três domínios essenciais:

- conjunto de trabalhos de história econômica e social;

- estudos de história cultural, atentos sobretudo aos registros literários;

- traduções de obras francesas — promovidas por algumas editoras lisboetas.

Mais difícil será diagnosticar a situação atual.

É importante considerar a banalização de conceitos e de modelos explicativos da história econômica e social, reconhecer o declínio do interesse francês pelos estudos de literatura portuguesa, analisar o mercado das traduções.

 A obra propõe-nos uma reflexão sobre o paradigma historiográfico dos anos 50 e 60, construído em relação à economia e sociedade, mas que se tornou extensivo a história das mentalidades.

A obra apresenta oito ensaios publicados após 1982.

Neste contexto, ler a História Cultural: entre práticas e representações implica uma segunda ordem de reflexões:

- Qual a distância entre o autor na sua origem e neste seu ponto de chegada?

uma primeira distancia se encontra na configuração de autores: Pierre Bourdieu, Michel de Certeau (pouco conhecidos em língua portuguesa e ausência de publicação de suas obras mais importantes), Michel Foucault, Gadamer, Geertz, Habermas, Jauss, Ricoeur.

Norbert Elias (mais divulgado, mas com risco de leituras redutoras da sua obra.

Ao esquecer tais autores, corremos o risco de ler Chartier fora do seu contexto.

Há também o risco de isolarmos uma pequena parte da sua obra e a apresentamos em forma de livro.

Conjunto de áreas e de interesses presentes na totalidade das publicações do autor.

- análise das instituições de ensino e das sociabilidades intelectuais;

- conjunto de investigações parcelares — sobre a marginalidade, os intelectuais frustrados, a festa ou a morte — e de tentativas de síntese — da França urbana a vida privada;

- história da leitura, permanentemente confrontada com a história do livro, da edição ou dos objetos tipográficos; interrogação da teoria da recepção e da sociologia cultural

- análises da cultura política;

- reflexão sobre o ofício de historiador.

Três aspectos a considerar em conjunto:

- percurso acadêmico;

- itinerário editorial;

Tensão fundamental que percorre a obra de Chartier:

- dupla tendência para analisar a realidade através das suas representações e para considerar as representações como realidade de múltiplos sentidos;

- constatação da existência de práticas sociais que não poderão ser reduzidas a representações, pois revestem uma lógica autônoma. 


Introdução: por uma sociologia histórica das práticas culturais

Livro - oito ensaios publicados entre 1982 e 1986 - resposta à insatisfação sentida frente a história cultural francesa dos anos 60 e 70

História Cultural Francesa: dupla vertente de história das mentalidades e de história serial, quantitativa

Compreensão relacionada à situação da própria história, como disciplina

História:

- institucionalmente dominante (peso numérico, importância do capital escolar, em termos de currículo e de graus acadêmicos, primazia do estudo das conjunturas econômicas e demográficas ou das estruturas sociais)

- intelectualmente ameaçada (ciências sociais mais recentemente institucionalizadas -  linguística, sociologia, psicologia)

Desafio lançado à história pelas novas disciplinas: questionamento dos seus objetos – desviando a atenção das hierarquias para as relações, das posições para as representações, e suas certezas metodológicas – consideradas mal fundadas quando confrontadas com as novas exigências teóricas.

Novas disciplinas: aplicam em áreas até então estranhas aos interesses da história econômica e social normas de cientificidade e modelos de trabalho frequentemente decalcados das ciências exatas, importam da área das disciplinas literárias novos princípios de legitimidade, que desqualificavam a história enquanto disciplina empírica

Com isso, as novas disciplinas tentavam converter a sua fragilidade institucional em hegemonia intelectual e minavam o domínio da história nos campos universitário e intelectual

Dupla resposta dos historiadores: captação (emergência de novos objetos de pesquisa – as atitudes perante a vida e a morte, as crenças e os comportamentos religiosos, os sistemas de parentesco e as relações familiares, os rituais, as formas de sociabilidade, as modalidades de funcionamento escolar etc.), o que representava a constituição de novos territórios do historiador através da anexação dos territórios dos outros. Daí, o retorno a uma das inspirações fundadoras dos primeiros Annales dos anos 30, a saber, o estudo das utensilagens mentais que o domínio de uma história dirigida antes demais para o social tinha em certa medida relegado para segundo plano.

Sob a designação de história das mentalidades ou de psicologia histórica, delimitava-se um novo campo de pesquisa.

Mas a estratégia de captação não punha de lado nada do que tinha estado na base do sucesso da disciplina (tratamento serial de fontes massivas). A história das mentalidades construiu-se aplicando a novos objetos os princípios de inteligibilidade utilizados na história das economias e das sociedades (preferência dada ao maior número, logo a investigação da cultura tida como popular; a confiança nos números e na quantificação; o gosto pela longa duração; a primazia atribuída a um tipo de divisão social que organizava imperativamente a classificação dos fatos de mentalidade.

História cultural - concilia novos domínios de investigação com a fidelidade aos postulados da história social

Qualquer reflexão sobre os desvios ou afrontamentos próprios de uma disciplina supõe necessariamente a identificação da sua posição no campo universitário e a verificação dos legados interiorizados e das posturas partilhadas que constituem o cerne da sua especificidade.

Durante um período demasiado longo, a história da história foi habitada por «essas sequencias de conceitos saídos de inteligências desencarnadas», denunciadas por Lucien Febvre como o pior defeito da antiga história das ideias

O presente livro pretende ilustrar uma outra maneira de pensar as evoluções e oposições intelectuais.

A história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler.

Uma tarefa deste tipo supõe vários caminhos. O primeiro diz respeito às classificações, divisões e delimitações que organizam a apreensão do mundo social como categorias fundamentais de percepção e de apreciação do real. Variáveis consoante às classes sociais ou aos meios intelectuais, são produzidas pelas disposições estáveis e partilhadas, próprias do grupo. São estes esquemas intelectuais incorporados que criam as figuras graças as quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se inteligível e o espaço ser decifrado.

As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza.

As percepções do social não são de forma alguma discursos neutros: produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projeto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas. Por isso esta investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e de dominação. As lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio. Ocupar-se dos conflitos de classificações ou de delimitações não é, portanto, afastar-se do social – como julgou durante muito tempo uma história de vistas demasiado curtas —, muito pelo contrário, consiste em localizar os pontos de afrontamento tanto mais decisivos quanto menos imediatamente materiais.

Espera-se acabar com os falsos debates desenvolvidos em torno da partilha entre a objetividade das estruturas (que seria o terreno da história mais segura, aquela que, manuseando documentos seriados, quantificáveis, reconstrói as sociedades tais como eram na verdade) e a subjetividade das representações (a que estaria ligada uma outra história, dirigida às ilusões de discursos distanciados do real).

Tal clivagem atravessou profundamente a história, opondo abordagens estruturalistas (trabalhando as posições e relações dos diferentes grupos, muitas vezes identificados com classes), e perspectivas fenomenológicas (estudo dos valores e dos comportamentos de comunidades mais restritas, frequentemente consideradas homogêneas).

Tentar ultrapassar essa polarização exige considerar os esquemas geradores das classificações e das percepções, próprios de cada grupo ou meio, como verdadeiras instituições sociais, incorporando sob a forma de categorias mentais e de representações coletivas as demarcações da própria organização social: «As primeiras categorias lógicas foram categorias sociais; as primeiras classes de coisas foram classes de homens em que essas coisas foram integradas".» O que leva a considerar estas representações como as matrizes de discursos e de práticas diferenciadas — «mesmo as representações coletivas mais elevadas só têm uma existência, isto é, só o são verdadeiramente a partir do momento em que comandam atos» que tem por objetivo a construção do mundo social, e como tal a definição contraditória das identidades — tanto a dos outros como a sua.


18/01/2022

Continuação

Retorno a Marcel Mauss e a Emile Durkheim - noção de «representação coletiva»

Pode pensar-se uma história cultural do social que tome por objeto a compreensão das formas e dos motivos – isto é, das representações do mundo social — que, à revelia dos atores sociais, traduzem as suas posições e interesses objetivamente confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tal como pensam que ela é, ou como gostariam que fosse.

Reflexão sobre a noção de símbolo, simbolização, forma simbólica x representação

Propomos que se tome o conceito de representação num sentido mais particular e historicamente mais determinado. A noção não é estranha às sociedades de Antigo Regime, pelo contrário, ocupa aí um lugar central.

Definições antigas do termo (dicionário de Furetière) manifestam a tensão entre duas famílias de sentidos:

- por um lado, a representação como dando a ver uma coisa ausente, o que supõe uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado: 

  • faz ver um objeto ausente através da sua substituição por uma «imagem» capaz de o reconstituir em memória e de o figurar tal como ele é: bonecos de cera, de madeira ou de couro, colocados por cima do féretro real durante os funerais dos soberanos franceses e ingleses e que mostravam o que já não era visível, isto é, a dignidade imortal perpetuada na pessoa mortal do rei;
  • relação simbólica que consiste na «representação de um pouco de moral através das imagens ou das propriedades das coisas naturais: o leão é o símbolo do valor; a esfera, o da inconstância; o pelicano, o do amor paternal (uma relação compreensível é postulada entre o signo visível e o referente por ele significado — o que não quer dizer que seja necessariamente estável e unívoca);
*A relação de representação (relacionamento de uma imagem presente e de um objeto ausente modela roda a teoria do signo que comanda o pensamento clássico e encontra a sua elaboração mais complexa com os lógicos de Port-Royal.

Duas condições necessárias para que uma relação desse tipo seja inteligível: o conhecimento do signo enquanto signo, no seu distanciamento da coisa significada, e a existência de convenções partilhadas que regulam a relação do signo com a coisa.

Importante: variabilidade e pluralidade de compreensões (ou incompreensões) das representações do mundo social e natural, propostas nas imagens e nos textos antigos.

- por outro, a representação como exibição de uma presença, como apresentação pública de algo ou de alguém 

Distinção fundamental entre representação e representado, entre signo e significado - pervertida pelas formas de teatralização da vida social de Antigo Regime.

As formas de teatralização têm em vista fazer com que a identidade do ser não seja outra coisa senão a aparência da representação

Pascal - funcionamento da «montra» que leva a crer que a aparência vale pelo real (A indumentária do judiciário e do médico – exemplo - é-lhes necessário lançar mão desses vãos instrumentos que impressionam a imaginação daqueles com que tem de tratar; e é deste modo, que se dão ao respeito

A relação de representação é assim confundida pela ação da imaginação, «essa parte dominante do homem, essa mestra do erro e da falsidade». Assim deturpada, a representação transforma-se em máquina de fabrico de respeito e de submissão, num instrumento que produz constrangimento interiorizado, necessário onde quer que falte o possível recurso a uma violência imediata. Só os homens de guerra não se mascaram dessa maneira, porque efetivamente afirmam-se pela força, enquanto os outros o fazem por meio de dissimulações.

Sociedade antiga:

- posição «objetiva» de cada indivíduo como dependente do crédito atribuído à representação que ele faz de si próprio por aqueles de quem espera reconhecimento; quando

- compreensão das formas de dominação simbólica, como corolário da ausência ou do apagamento da violência bruta.

É no processo de longa duração, de erradicação e de monopolização da violência, que e necessário inscrever a importância crescente adquirida pelas lutas de representações, onde o que está em jogo é a ordenação, logo a hierarquização da própria estrutura social.

Trabalhando assim sobre as representações que os grupos modelam deles próprios ou dos outros, a história cultural pode regressar utilmente ao social, já que faz incidir a sua atenção sobre as estratégias que determinam posições e relações e que atribuem a cada classe, grupo ou meio um «ser-apreendido» constitutivo da sua identidade.

Noção de representação: pedra angular de uma abordagem a nível da história cultural.

Mais do que o conceito de mentalidade, a noção de representação articula três modalidades da relação com o mundo social:

- o trabalho de classificação e de delimitação que produz as configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos;

- as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição;

- as formas institucionalizadas e objetivadas, graças às quais uns «representantes» (instâncias coletivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade.

Representações e leitores dos textos (ou das imagens) que dão a ver e a pensar o real.

- interesse pelo processo por intermédio do qual é historicamente produzido um sentido e diferenciadamente construída uma significação.

Tal tarefa cruza com a hermenêutica, quando se esforça por compreender como é que um texto pode «aplicar-se» a situação do leitor.

No ponto de articulação entre o mundo do texto e o mundo do sujeito coloca-se necessariamente uma teoria da leitura capaz de compreender a apropriação dos discursos, isto e, a maneira como estes afetam o leitor e o conduzem a uma nova norma de compreensão de si próprio e do mundo.

Paul Ricoeur - teoria da leitura – apoiada na fenomenologia do ato de ler e na estética da recepção

Objetivo duplo: pensar a efetivação do texto na sua leitura como a condição para que se revelem as suas possibilidades semânticas e se opere o trabalho de prefiguração da experiência; compreender a apropriação do texto como uma mediação necessária à constituição e à compreensão de si mesmo

Questão essencial - das modalidades 'da sua' recepção

Deve ser marcado um distanciamento em relação à perspectiva hermenêutica. Compreender na sua historicidade as apropriações que se apoderam das configurações textuais exige o rompimento com o conceito de sujeito universal e abstrato, tal como o utilizam a fenomenologia e a estética da recepção.

Ambas o constroem quer a partir de uma invariância trans-histórica da individualidade, considerada idêntica através dos tempos, quer pela projeção no universal de uma singularidade que e a de um “eu” ou de um “nós” contemporâneo.

Ponto de discordância - descontinuidade fundamental das formações sociais e culturais, logo a das categorias filosóficas, das economias psíquicas, das formas de experiência.  Pensar a individualidade nas suas variações históricas equivale não só a romper com o conceito de sujeito universal, mas também a inscrever num processo a longo prazo as mutações das estruturas da personalidade.

Aplicada à teoria da leitura, esta perspectiva leva a observar quão insatisfatórias são as abordagens que consideram o ato de ler como uma relação transparente entre o «texto» — apresentado como uma abstração, reduzido ao seu conteúdo semântico, como se existisse fora dos objetos que o oferecem a decifração — e o «leitor» — também ele abstrato, como se as práticas através das quais ele se apropria do texto não fossem histórica e socialmente variáveis.

Os textos não são depositados nos objetos que o suportam como em receptáculos, e não se inscrevem no leitor como o fariam em cera mole.

Considerar a leitura como um ato concreto requer que qualquer processo de construção de sentido, logo de interpretação, seja encarado como estando situado no cruzamento entre leitores dotados de competências específicas e textos cujo significado se encontra sempre dependente dos dispositivos discursivos e formais — chamemos-lhes «tipográficos» no caso dos textos impressos — que são os seus.

A produção do sentido, a «aplicação» do texto ao leitor como uma relação móvel, diferenciada, dependente das variações, simultâneas ou separadas, do próprio texto, da passagem à impressão que o dá a ler e da modalidade da sua leitura (silenciosa ou oral, sacralizada ou laicizada, comunitária ou solitária, pública ou privada, elementar ou virtuosa, popular ou letrada, etc.)

19/01/2022

CAPÍTULO I

História intelectual e história das mentalidades: uma dupla reavaliação


História intelectual: dificuldades

- vocabulário, designações (especificidade nacional das designações utilizadas e tamanha dificuldade em adaptá-las, ou mais simplesmente em traduzi-las para uma outra língua e para outro contexto intelectual)

A historiografia americana conhece duas categorias: a intelectual history e history of ideas. Mas nos diferentes países europeus, nenhuma destas duas designações se impôs inteiramente: na Alemanha, a Geistesgeschichte* continua a ser dominante, na Itália não aparece uma Storia intellettuale, na Franga, a história das ideias praticamente não existe, nem como noção, nem como disciplina e a história intelectual parece ter chegado demasiado tarde para substituir as designações tradicionais (história da filosofia, história literária, história da arte etc) história da arte, etc.), tendo permanecido sem força para se opor a um novo vocabulário, forjado no essencial pelos historiadores dos Annales: história das mentalidades, psicologia histórica, história social das ideias, historia sociocultural, etc.

Por outro lado, o termo história das mentalidades é de difícil exportação, parece ser pouco consistente noutras línguas que não o francês, o que leva a não traduzir a expressão e a reconhecer assim a irredutível especificidade de uma maneira nacional de pensar as questões.

Às certezas lexicais das outras histórias (econômica, social, política), a história intelectual opõe, portanto, uma dupla incerteza respeitante ao vocabulário que a designa: cada historiografia nacional possui a sua própria conceptualidade e, em cada uma delas, entram em competição diferentes noções, mal diferenciadas umas das outras.

Mas, por detrás dessas diferentes palavras haverá semelhanças entre as coisas? Ou, noutros termos, o objeto que elas designam de maneiras tão diversas será único e homogêneo? Nada parece menos certo.

Para além das designações e das definições importam a ou as maneiras como, em dado momento, os historiadores delimitam esse território imenso e indeciso e tratam as unidades de observação assim constituídas. Essas diversas maneiras determinam cada uma o seu objeto, a sua utensiliarem conceptual, a sua metodologia.

A incerteza e a dispersão do vocabulário de designação remetem, sem sombra de dúvida, para essas lutas intradisciplinares ou interdisciplinares

São, pois, algumas das oposições que moldaram e dividiram de maneira original a história intelectual francesa que pretendemos aqui expor.


13 a 15/01/2022


Artigo: O Mundo como Representação 

Roger Chartier


Editorial da primavera de 1988 dos Annales:
convite aos historiadores a uma reflexão a partir de uma dupla constatação
  •  existência de uma crise geral das Ciências Sociais (abandono dos paradigmas dominantes: marxismo e estruturalismo; rejeição das ideologias que haviam lhe garantindo o sucesso (adesão a um modelo de transformação radical, socialista, das sociedades ocidentais capitalistas e liberais);
  • o diagnóstico não se aplica na íntegra à História, que ainda é vista como uma disciplina sadia e vigorosa, no entanto atravessada pela incerteza de alguns esgotamentos (alianças tradicionais - geografia, etnologia, sociologia - e obliteração - desaparecimento - das técnicas de tratamento e dos modos de inteligibilidade que davam unidade a seus objetos e encaminhamentos). Tal estado seria o reverso de sua vitalidade, multiplicando os campos de pesquisa, experiência e encontros.

Um diagnóstico posto em dúvida

Por que esse diagnóstico de crise das  Ciências Sociais e vitalidade da História?
Cuidado de preservar a disciplina em uma conjuntura de declínio radical das teorias e saberes sobre os quais a História havia fundamentado seus avanços nas décadas de 60 e 70.
Os desafios lançados à História pelas disciplinas mais recentemente triunfantes (Linguística, Etnologia, Sociologia) questionavam a História em seus objetos (o primado conferido ao estudo das conjunturas - econômicas ou demográficas - e das estruturas sociais) e em suas certezas metodológicas, tidas como pouco seguras à vista das novas exigências teóricas.
As Ciências Sociais estavam minando a posição dominante ocupada pela História no campo universitário, mediante:
  • a proposição de objetos de estudos inteiramente estranhos a uma História dedicada por completo à exploração do econômico e do social;
  • a proposição de normas de cientificidade e modos de trabalho imitados das Ciências Exatas.
A resposta dos historiadores foi dupla:
  • constituição de novos territórios do historiador por meio da anexação de territórios alheios (dos etnólogos, dos sociólogos, dos demógrafos); 
  • retorno a uma das inspirações fundadoras dos primeiros Annales dos anos 30: o estudo dos utensílios mentais, que o predomínio da história das sociedades havia relegado a um segundo plano. Sob o domínio das História das Mentalidades - ou por vezes, da psicologia histórica - delimitava-se um domínio de pesquisa distinto tanto da velha história das ideias quanto da das conjunturas e estruturas.
Contudo, era preciso não abandonar nada do que tinha constituído a força da disciplina História (tratamento quantitativo de fontes maciças e seriais).
A História das Mentalidades construiu-se ao aplicar a novos objetos os princípios de inteligibilidade previamente provados na história da economias e das sociedades, por isso, a preferência pelo maior número, a confiança no numérico e na série, o gosto pela longa duração, o primado conferido ao recorte socioprofissional.
A operação foi um sucesso: a História constituiu novos campos de pesquisa, mantendo-se fiel ao postulado da história social.

O desafio lançado à História, nos anos 80, ancora-se na crítica aos postulados das próprias  Ciências Sociais: recusa da força das determinações coletivas e dos condicionamentos sociais e o primado conferido ao político que deveria constituir o nível mais abrangente da organização das sociedades. A História é convidada a reformular seus objetos, suas frequentações e seu princípio de inteligibilidade. É preciso separar das Ciências Sociais (condenadas por sua preferência por um paradigma obsoleto)

Três deslocamentos sob forma de renúncia

As verdadeiras mudanças no trabalho da História nos últimos anos não decorrem de uma crise geral das Ciências Sociais nem da mudança de paradigma, mas da distância tomada, nas próprias práticas de pesquisa, em relação aos princípios de inteligibilidade que governavam o procedimento histórico há 20 ou 30 anos.

Três princípios de inteligibilidade (Este conjunto de certeza abalou-se progressivamente, deixando o campo livre para uma pluralidade de abordagens e compreensões):

- projeto de uma História Global (História Total): 
  • a renúncia da História Total e do modelo braudeliano (3 tempos: longo - das estruturas -, médio - das conjunturas - , e curto - dos acontecimentos), os historiadores tentaram pensar os funcionamentos sociais fora de uma rígida hierarquia das práticas e das temporalidades (econômicas, sociais, políticas, culturais), sem que se fosse dada primazia para um conjunto particular de determinações (técnicas, econômicas e demográficas). Daí a tentativa de decifrar as sociedades de outro modo, penetrando nas relações e tensões que as constituem por um ponto de entrada particular (um acontecimento, um relato, uma rede de práticas), considerando não haver prática ou estrutura que não seja produzida pelas representações, contraditórias e em confronto, pelas quais os indivíduos e os grupos dão sentido ao mundo que é o deles.
- definição territorial dos objetos de pesquisa (descrição de uma sociedade instalada em um espaço particular), que era a condição de possibilidades da coleta e do tratamento dos dados exigida pela história total: 
  • os historiadores afastaram-se do procedimento de inventário, que advém da escola da geografia humana. A cartografia das particularidades foi substituída pela pesquisa das regularidades (retorno à sociologia durkheimiana, preferindo as leis gerais.
- primado conferido ao recorte social considerado capaz de organizar a compreensão das diferenciações e das partilhas culturais:
  • a história mostrou que é impossível qualificar os motivos, os objetos ou as práticas culturais em termos imediatamente sociológicos, considerando que sua distribuição e seus usos não se organizam necessariamente segundo divisões sociais prévias;
  • as relações entre as obras ou as práticas e o mundo social são sensíveis à diversidade de clivagens que atravessam uma sociedade e à diversidade dos empregos de materiais ou de códigos partilhados.
Mundo do texto e mundo do leitor: a construção do sentido

O trabalho de Chartier organiza-se em três polos:
- o estudo críticos dos textos;
- a história dos livros;
- a análise das práticas que se apreendem dos bens simbólicos.

Questão central:

Como, nas sociedades do Antigo Regime, entre os séculos XVI e XVIII, a circulação multiplicada do escrito impresso modificou as formas de sociabilidade, autorizou novos pensamentos, transformou as relações com o poder.

Como se dá o encontro do mundo do texto com o mundo do leitor.

- estudo de uma classe particular de objetos impressos (por exemplo o corpus da literatura de colportage);
- exame das práticas de leitura, em sua diversidade;
- história de um texto particular, proposto a públicos diferentes em formas muito contrastadas.

Várias hipóteses orientaram a pesquisa:
- a primeira hipótese sustenta a operação de construção de sentido efetuada na leitura (ou na escuta) como um processo historicamente determinado cujos modos e modelos variam de acordo com os tempos, os lugares, as comunidades. 
- a segunda considera que as significações múltiplas e móveis de um texto dependem das formas por meio das quais é recebido por seus leitores (ou ouvintes).

As formas do texto produzem sentido. Um texto estável na sua literalidade investe-se de uma significação e de um estatuto inéditos quando mudam os dispositivos do objeto tipográfico que o propõem à leitura.

A leitura é sempre uma prática encarnada em gestos, espaços, hábitos, uma história das maneiras de ler deve identificar as disposições específicas que distinguem as comunidades de leitores e as tradições de leitura.

Clivagem entre analfabetizados e analfabetos (?)
- os que podem ler os textos, não os leem de maneira semelhante
- distância grande entre os letrados de talento e os leitores menos hábeis, obrigados a oralizar o que leem para poder compreender, só se sentindo à vontade frente a determinadas formas textuais ou tipográficas
- contrastes entre normas de leitura que definem, para cada comunidade de leitores, usos do livro, modos de ler, procedimentos de interpretação. - contrastes entre as expectativas e os interesses diversos que os diferentes grupos de leitores investem na prática de ler. 

De tais determinações, que regulam as práticas, dependem as maneiras pelas quais os textos podem ser lidos, e lidos diferentemente pelos leitores que não dispõem dos mesmos utensílios intelectuais e que não entretêm uma mesma relação como escrito.

Apropriação: noção central para a história cultural (reformulação, que enfatiza a pluralidade dos empregos e das compreensões e a liberdade criadora — mesmo regulada — dos agentes que não obrigam nem os textos nem as normas) 
A apropriação visa a uma história social dos usos e das interpretações, referidas a suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas específicas que as produzem. Assim, voltar a atenção para as condições e os processos que sustentam as operações de produção do sentido é reconhecer, contra a antiga história intelectual, que nem as inteligências nem as ideias são desencarnadas, e, contra os pensamentos do universal, que as categorias dadas como invariantes, sejam elas filosóficas ou fenomenológicas, devem ser construídas na descontinuidade das trajetórias históricas.

Da História Social da Cultura a uma História Cultural do Social

História Social da Cultura: as clivagens culturais estão forçosamente organizadas segundo um recorte social previamente construído.

História Cultural do Social: partir dos objetos, das formas, dos códigos, e não dos grupos

Exemplo: circulação dos textos impressos nas sociedades de Antigo Regime
A compreensão exige dois deslocamentos
- reconhecimento dos desvios socialmente mais enraizados nos usos contrastados de materiais partilhados (compreender como os mesmos textos — sob formas impressas possivelmente diferentes — podem ser diversamente aprendidos, manipulados, compreendidos por leitores populares e leitores letrados)
- redes de prática que organizam os modos, histórica e socialmente diferençados, da relação aos textos (devem ser reconstruídas as maneiras de ler próprias a cada comunidade de leitores)

"Whatever they may do, authors do not write books. Books are not written at all. They are manufactured by scribes and other artisans, by mechanics and other engineers, and by printing press and other machines"

O que quer que façam, autores não escrevem livros. Livros não são escritos em absoluto. Eles são fabricados por escribas e outros artesãos, por mecânicos e outros engenheiros, por prensas de impressão e outras máquinas.

Não há texto fora do suporte que lhe permite ser lido (ou ouvido) e não há compreensão de um escrito, qualquer que seja, que não dependa das
formas pelas quais atinge o leitor.

Daí a distinção indispensável entre dois conjuntos de dispositivos: os que provêm das estratégias de escrita e das intenções do autor, e os que resultam de uma decisão do editor ou de uma exigência de oficina de impressão.

Os autores não escrevem livros: não, escrevem textos que outros transformam em objetos impressos. 

A diferença, que é justamente o espaço em que se constrói o sentido — ou os sentidos —, foi muitas vezes esquecida, não somente pela história literária clássica, que pensa o obra em si, como um texto abstrato cujas formas tipográficas não importam, mas também pela Rezeptionsästhetik que postula, apesar de seu desejo de historicizar a experiência que os leitores têm das obras, uma relação pura e imediata entre os "sinais" emitidos pelo texto — que contam com as convenções literárias aceitas — e "o horizonte de expectativa" do público a que se dirigem. Numa tal perspectiva, "o efeito produzido" não depende de modo algum das formas materiais que suportam o texto. No entanto, também contribuem amplamente para dar feição às antecipações do leitor em relação ao texto e para avocar novos públicos ou usos inéditos.

Representações Coletivas e Identidades Sociais

A partir deste terreno de trabalho em que se enredam o texto, o livro e a leitura, podem-se formular várias proposições que articulam de maneira nova os recortes sociais e as práticas culturais. 
A primeira alimenta a esperança de levantar os falsos debates em torno da divisão, entre as objetividades das estruturas (que seria o território da história mais segura, que, ao manipular documentos maciços, seriais, quantificáveis, reconstrói as sociedades tais como verdadeiramente eram) e a subjetividade das representações (a que se ligaria uma outra história dedicada aos discursos e situada à distância do real).
Representação coletiva: três modalidades de relação com o mundo
social: 
- o trabalho de classificação e de recorte que produz configurações intelectuais múltiplas pelas quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos que compõem uma sociedade; 
- as práticas que visam a fazer reconhecer uma identidade social, a exibir uma maneira própria de ser no mundo, a significar simbolicamente um estatuto e uma posição;
- as formas institucionalizadas e objetivadas em virtude das quais "representantes" (instâncias coletivas ou indivíduos singulares) marcam de modo visível e perpétuo a existência do grupo, da comunidade ou da classe.

Dupla via: 
- uma que pensa a construção das identidades sociais como resultando sempre de uma relação de força entre as representações impostas pelos que detêm o poder de classificar e de nomear e a definição, de aceitação ou de resistência, que cada comunidade produz de si mesma; 
- outra que considera o recorte social objetivado como a tradução do crédito conferido à representação que cada grupo dá de si mesmo, logo a sua capacidade de fazer reconhecer sua existência a partir de uma demonstração de unidade. 

Ao trabalhar sobre as lutas de representação, cuja questão é o ordenamento, portanto a hierarquização da própria estrutura social, a história cultural separa-se sem dúvida de uma dependência demasiadamente estrita de uma história social dedicada exclusivamente ao estudo das lutas econômicas, porém opera um retorno hábil também sobre o social, pois centra a atenção sobre as estratégias simbólicas que determinam posições e relações e que constroem, para cada classe, grupo ou meio, um ser-percebido constitutivo de sua identidade.

Dicionário universal de Furetière: as acepções correspondentes à palavra "representação "atestam duas famílias de sentido aparentemente contraditórias: 
- a representação faz ver uma ausência, o que supõe uma distinção clara entre o que representa e o que é representado; 
(manequins de cera, de madeira ou couro que eram postos sobre a sepultura monárquica durante os funerais dos soberanos franceses e ingleses - "Quando se vai ver os príncipes mortos, exibidos em seus leitos de morte, só se vê a representação, a efígie") 
- a representação é a apresentação de uma presença, a apresentação pública de uma coisa ou de uma pessoa. 
(relação simbólica,o leão é o símbolo do valor, a bolha o da inconstância, o pelicano o do amor materno". Uma relação decifrável é portanto postulada entre o signo visível e o referente significado — o que não quer dizer, é claro, que é necessariamente decifrado tal qual deveria ser.)

A Lógica de Port-Royal propõe os termos de uma questão fundamental: a das possíveis incompreensões da representação, seja por falta de "preparação" do leitor (o que remete às formas e aos modos de inculcação das convenções), seja pelo fato da "extravagância" de uma relação arbitrária entre o signo e o significado (o que levanta a questão das próprias condições de produção das equivalências admitidas e partilhadas.

Assim desviada, a representação transforma-se em máquina de fabricar respeito e submissão, num instrumento que produz uma exigência interiorizada, necessária exatamente onde faltar o possível recurso à força bruta.

E portanto no processo de longa duração de erradicação da violência, tornada monopólio do Estado absolutista, que é preciso inscrever a importância crescente das lutas de representação, cuja problemática central é o ordenamento, logo a hierarquização da própria estrutura social.

O sentido das formas

Desvios mais socialmente enraizados nas diferenças mais formais:
- os dispositivos formais — textuais ou materiais — inscrevem em suas próprias estruturas as expectativas e as competências do público a que visam, organizando-se portanto a partir de uma representação da diferenciação social;
- as obras e os objetos produzem sua área social de recepção, muito mais do que as divisões cristalizadas ou prévias o fazem.

Exemplos: 
- as formas como eram representadas as peças de Shakespeare na América, do século XIX, criou um público distinto da pura e simples elite burguesa e letrada.
- as transformações "tipográficas" operadas pelos editores da Bibliothèque bleue sobre as obras postas no catálogo: 

Ambos os exemplos demonstram o objetivo de inscrever o texto numa matriz cultural que não é a dos destinatários primeiros e a permitir assim uma pluralidade de apropriações.

Os dois exemplos levam a considerar as diferenciações culturais, não como a tradução de divisões estáticas e imóveis, mas como o efeito de processos dinâmicos. A transformação das formas através das quais um texto é proposto autoriza recepções inéditas, logo cria novos públicos e novos usos. Por outro, a partilha dos mesmos bens culturais pelos diferentes grupos que compõem uma sociedade suscita a busca de novas distinções, capazes de marcar os desvios mantidos.

Figuras do Poder e Práticas Culturais

Busca-se compreender a partir das mutações no modo de exercício do poder (geradores de formações sociais inéditas) tanto as transformações das estruturas da personalidade quanto as das instituições e das regras que governam a produção das obras e a organização das práticas.

A ligação estabelecida por Elias entre a racionalidade de corte, produzida pelas exigências de uma forma social nova, necessária ao absolutismo, e os traços próprios à literatura clássica designa com acuidade o lugar de um trabalho possível. 
Mas é também a partir das divisões instauradas pelo poder (por exemplo entre os séculos XVI e XVII entre razão de Estado e consciência moral, entre patronagem estatal e liberdade de foro íntimo) que devem ser apreciadas tanto a emergência de uma esfera literária autônoma como a constituição de um mercado de bens simbólicos e de julgamentos intelectuais ou estéticos. 
Estabelece assim um espaço da crítica livre onde se opera uma progressiva politização, contra a monarquia do Antigo Regime de práticas culturais que o Estado tinha durante algum tempo capturado em seu proveito — ou que tinham nascido como reação a seu ascendente, na esfera do privado.

12/01/2022


O Mundo como Representação - Roger Chartier


Vídeo:  O Mundo como Representação - Roger Chartier

Professor Dr. Julierme Sebastião Morais Souza (UEG)


Anotações

Obras fundamentais: História Cultural: entre práticas e representações

                               À beira da falésia

Representações e práticas: relação com os livros

Como a circulação do impresso, na sociedade do Antigo Regime, mudou as formas de sociabilidade, autorizou novos pensamentos e transformou as relações de poder?

Representações e práticas de leitura do Antigo Regime


Não há uma crise generalizada nas Ciências Sociais

Há um deslocamento da história para a cultura

diferencia história social da cultura e história cultural do social, Chartier toma partido desta última

analisa o encontro e o distanciamento entre o mundo do texto e o mundo do leitor

conceitua representação

busca demonstrar que as representações auxiliam o sujeito na construção de identidades

apresenta o campo de estudo da História Cultural

analisa as formalidades das práticas de produção e recepção de cultura

busca compreender as relações de poder em meio às práticas e representações

chama a atenção para a luta de representações


Suposta crise da Ciências Sociais

A Ciências Sociais não estão em crise

O diálogo interdisciplinar, que resultou da importação de métodos e técnicas de pesquisa de outras ciências, contraria tal ideia

Ver relação dos historiadores com a Antropologia e com outras ciências sociais

As alterações na forma de fazer História não resultam de uma crise na Ciências Sociais

Os princípios de inteligibilidade que governavam a história foram abalados progressivamente ao longo do século XX

Isso não levou a História a um processo de crise, mas abriu espaço para uma pluralidade de abordagens e compreensões

Não há uma crise, há um reposicionamento

3 deslocamentos em forma de renúncias

- a História renuncia ao projeto de História Total e do modelo braudeliano (renuncia à proposta da totalidade do contexto histórico e da noção de 3 tempos de Braudel)

  • abre-se mão da hierarquização das práticas sociais e temporalidades
  • abre-se mão da primazia das determinações (sociais, econômicas, demográficas...)
  • as práticas e estruturas seriam resultantes das representações
  • há uma luta de representações
  • os historiadores passam a compreender as práticas e estruturas a partir das representações

- a História renuncia a definição territorial dos objetos de pesquisa, ou seja deixa de definir o objeto de pesquisa em razão do território

  • abre-se mão de se fazer um inventário determinado lugar
  • abre-se mão de se fazer uma cartografia das particularidades de determinado lugar
  • adere-se à pesquisa das regularidades
  • tentativa de estabelecimento de leis gerais que influenciam práticas e representações sociais
  • a historiografia (1970-1980) começa a resgatar o sentido dos Annales do início de Febvre e Bloch 

- A História renuncia a primazia do social

  • percebe-se que era impossível qualificar os motivos dos objetos ou as práticas culturais em termos imediatamente sociológicos, era preciso ir para os objetos primeiramente para depois dialogar com a sociologia
  • percebe-se a dificuldade de se compreender as práticas e as estruturas sociais a partir de uma divisão social prévia
  • não seria possível afirmar previamente que um determinado sujeito de um determinado lugar assumiria determinadas práticas, em razão das divisões sociais
  • a opção pelo social leva à rotulação e à consequente qualificação das práticas sociais 

1970-1980: passagem da História de um modelo braudeliano para uma nova história, com novos objetos

Essas renúncias levam a História para outro caminho

Abre-se espaço para pensar as práticas culturais e o mundo social

Reflexão sobre a pluralidade de clivagens que atravessam a sociedade

Há uma diversidade de empregos de materiais e códigos culturais

A sociedade é diversa, plural, entremeada de práticas e de representações

É precisa pensar em perspectiva mais ampla

As representações influenciam as práticas e isso leva às divisões

Essas 3 renúncias revelam o deslocamento da História e não a crise da História


Olhar para as práticas de leitura, permite compreender como os indivíduos praticam a leitura ou a escuta em um determinado tempo e lugar

Os modos e modelos de leitura variam de acordo com o tempo e o lugar

A compreensão do objeto cultural depende da forma como foi recebido

Exemplo: ler no livro, ler na tela...

Para Chartier, as formas do texto influencia a construção do sentido.

Ler um livro, ler na tela são formas diferentes de leitura, consequentemente isso gera diferente sentidos para a leitura

É preciso historicizar as práticas e as representações

 

Apropriação: deve ser pensada à luz da liberdade criadora dos indivíduos

Apropriação de bens simbólicos, de práticas e de representações acontecem a todo mundo e é influenciada pela historicidade dos indivíduos, do seu contexto social, de suas experiências culturais, da sua visão de mundo...

Exemplo:

Shakespeare

modo como Shakespeare é recebido, é apropriado

a apropriação de Shakespeare na América do séc. XIX é diferente da apropriação da Inglaterra shakespeariana 

Inglaterra shakespeariana - público letrado, burguês

América do séc. XIX - público mais popular, ruidoso


Não há texto fora do suporte. O modo como o livro chega ao leitor é fundamental para a apropriação do leitor

2 conjuntos de dispositivos para entender o sentido do escrito que atinge o leitor:

estratégias provenientes da escrita e das intenções do autor

decisão do editor ou exigência da oficina de impressão


História Social da Cultura e História Cultural do Social

as representações geram práticas sociais e são geradas pelas práticas sociais

lutas de representações:

construções que geram identidades

uma representação se constrói contrária a outra

lutar contra o sistema é construir uma identidade

assumir o sistema é construir uma identidade também

a partir das lutas de representações é que surgem as identidades sociais

a vantagem da História Cultural é que, não partindo do social, estuda-se também o social

É possível compreender o mundo a partir das representações e das práticas

É possível o historiador compreender a documentação a partir das representações e das práticas

Passagem da História Social da Cultura para a História Cultural do Social

 

                    História & História Cultural - 

                     Sandra Jatahy Pesavento

Vídeo: História & História Cultural - Sandra Jatahy Pesavento

Professor Dr. Julierme Sebastião Morais Souza (UEG)


Anotações

Representações: como, em determinado tempo e lugar, uma realidade social é construída, por meio de classificações, divisões, delimitações...

Representações: esquemas intelectuais, construídos mentalmente, que criam figuras para a realidade, que dotam o presente de sentidos, para grupos sociais determinados. Isso auxilia a construção de identidade.

Representações: tem a característica de tornar algo ausente, presente, e tornar algo presente, ausente. Por meio das representações, é possível esvaziar o significado de alguma coisa.

Representações: colocam-se no lugar do mundo e auxiliam os homens e os grupos sociais a perceberem a realidade social.

É impossível pensar em representações sem pensar em práticas sociais.

Exemplo:

A representação dos nazistas sobre os judeus: Os judeus eram ratos que poderiam passar doenças, por isso deveriam ser exterminados. 

Essa representação gerava práticas de perseguição e extermínio dos judeus.

Essa representação gera um imaginário coletivo e é apropriado por alguns grupos sociais e podem aparecer nas artes (Exemplo da HQ Maus), em que os judeus são representados como ratos perseguidos pelos gatos nazistas.


Exemplo:

Salvador Dali: surrealismo (conteúdos que contrapõem a visão lógica da realidade)

Quadro "Sono"

Qual é relação da obra de Dali com a série "La casa de papel"?


Exemplo:

Manifesto Antropófago

contestação ao academicismo

representação do que é importante para a cultura brasileira

o Brasil era europeizado

os nativos não serviam como representante do homem brasileiro


***

Representações: geram práticas, apropriações, ressignificações

Há conflitos entre representações

***


Exemplo:

René Magritte (surrealista)

obra: ceci nest pas une pipe

a imagem do cachimbo não é um cachimbo

a palavra cachimbo não é o cachimbo

representação por substituição

(existe também a representação por exposição)


O texto histórico é uma representação do passado, não é o passado.

Várias representações possibilitam a construção do imaginário.

as representações são compartilhadas e levam à construção do imaginário.

Exemplo: O castelo dos pirineus (Magritte) 

Exemplo de imaginário

Em determinados momentos históricos, os homens constroem representações coletivas que dotam aquilo que não tem sentido, de sentido. E quando dotam de sentido, isso passa a ser imaginário.


Idade Média

imaginário da igreja x imaginário do mercador

o tempo da igreja é o tempo da oração

o tempo do mercador é o tempo do trabalho

o imaginário é a capacidade dos homens de representarem o mundo de forma coletiva


Narrativa

O texto histórico é uma narrativa, não é semelhante à narrativa ficcional

o texto histórico só pode ser considerado científico se estiver ligado a uma metodologia e a um lugar institucional (universidade, academia)

o historiador tem um contrato com seu leitor, em que se propõe uma representação do passado sobre o tema tratado.


Sensibilidade

é o que brota do íntimo do indivíduo

toda representação gera uma sensibilidade


                                11/01/2022

História Cultural: um panorama teórico e historiográfico - José D'Assunção Barros


Vídeo: História Cultural: um panorama teórico e historiográfico - José D'Assunção Barros

Professor Dr. Julierme Sebastião Morais Souza (UEG)


Anotações


Século XIX:

cultura: elitizada
ignoram-se aspectos da vida cotidiana
não leva em consideração uma noção mais ampla de cultura


Século XX

noção mais ampla de cultura
a linguagem e as práticas discursivas são consideradas culturais
a História Cultural enfoca os mecanismos de produção e de recepção dos objetos culturais
passa-se a considerar a cultura também como processo comunicativo

Principais objetos de pesquisa História Cultural do séc. XX:
- objetos culturais (artes, literatura, ciência)
- sujeitos culturais (produtores e receptores de cultura)
- práticas culturais (meios através dos quais se produz cultura)
- processos culturais (modo como a cultura é transmitida)
- padrões culturais (matéria-prima da cultura, visão de mundo, valores, ideologia)

New Left (Marxismo britânico)

flexibilização do esquema infraestrutura e superestrutura (do marxismo vulgar/ortodoxo)
entende-se a sociedade a partir da infraestrutura (questões econômicas, modo de produção, exploração da natureza, de onde o homem tira a sua sobrevivência) e da superestrutura (questões culturais, como os homens pensam)

No marxismo vulgar/ortodoxo, tudo que acontece na infraestrutura (economia) determina o que acontece na superestrutura (cultura)

Esse esquema não dá conta de responder a questões fundamentais, por isso a New Left flexibiliza o esquema infraestrutura/superestrutura

Raymond Willians
Marxismo e Literatura
conceito de hegemonia
infraestrutura e superestrutura se relacionam 
Como as normas determinadas pelo poder hegemônica influenciam a vida das pessoas (instituições, igreja, escola...)
Sociedade burguesa é emergente no absolutismo, transforma-se em dominante, a partir da Revolução Francesa e da Revolução Industrial
O absolutismo desaparece

dominante
emergente
residual

Ao longo do tempo o que é dominante torna-se residual, o que era emergente torna-se dominante, o residual acaba


A literatura inglesa (do século XVI ao XIX) representa os  interesses dominantes, mas isso vai mudando porque traz a visão dominante, porém traz também uma visão emergente

Raiz do marxismo britânico

Lukács - Marx e Engels - arte e literatura / teoria do reflexo
arte autêntica e arte inautêntica
teoria do reflexo: consciência para perceber a arte autêntica
consciência de classe
a arte precisa ser realista, já que é ilusória

Gramsci
todos os homens são intelectuais
caráter ativa da superestrutura
modo de produção é ampliado

Escola Frankfurt
abordagem polifônica da cultura
funde cultura e linguagem dentro da História Cultural
Embate de vozes
Pensar a cultura de forma dialógica, com a presença de diversas vozes

Abordagem culturalista francesa

Certeau - A invenção do cotidiano (estratégias e táticas)
Carnaval (Brasil)
manter a população pobre
estratégia: divertir a massa para dominar
tática: brincar o Carnaval dentro das possiblidades da estratégia

estratégia da escravidão: é dada uma "certa" liberdade para a culinária, a dança
tática: os escravizados cozinham e dançam de acordo com as possibilidades da estratégia

Chartier
preocupação com as práticas de leitura
como o indivíduo não letrado participa das cultura letrada
como a prática oral é incorporada pela escrita
maior contribuição: elaboração dos conceito de práticas e representações
noção de representação: próxima da noção de consciência coletiva, mas não é consciência coletiva
representações: dizem respeito ao modo como, em diferentes momentos e espaços, a realidade social é construída por meio de classificações, divisões, delimitações 
representação: esquemas intelectuais, que criam figuram, que dotam a realidade de sentido
contribuição de Chartier: História Cultural do Social
o sentido das representações é histórico e muda ao longo do tempo

- a figura do mendigos
Idade Média - a existência do mendigo era primordial para a salvação do indivíduo rico, por isso, o mendigo era bem acolhido. Toda comunidade queria ter os seus mendigos, pois eles eram vistos como laço entre o céu e a terra. Instrumento para que os ricos pudessem expiar seus pecados.
A visão do pobre como meio de salvação do rico é uma representação da Idade Média. 
Essa representação gera práticas
Desenvolvem-se instituições hospitalares, projetos educacionais, abrigos paroquiais

Na modernidade
O papel do trabalho impera
A ideologia do trabalho reina
A pessoa que não quer trabalhar é vista com extrema desconfiança, como forasteira, de modo excludente. 
O mendigo é representado como criminoso, vagabundo
isso gera práticas: prisões, expulsões, violência física e simbólica

Percebe-se, assim, a mudança das representações e, consequentemente, das práticas

O ato de fumar era considerado revolucionário, agora é visto como algo não saudável

As representações podem ser ideologizadas
As ideologizações podem ser apropriadas ou não

Apropriação: o modo como o indivíduo recebe a representação é diversa

Representação: tem relação com a realidade


História das mentalidades e História Cultural - Ronaldo Vainfas


Vídeo: História das mentalidades e História Cultural

Professor Dr. Julierme Sebastião Morais Souza (UEG)


Anotações


Peter Burke

História Cultural (4 momentos)

História Cultural Clássica – 1800/1950

História Social da Arte – 1920/1930

História da Cultura Popular – 1960/1980

Nova História Cultural – 1980 (desdobrada da História das Mentalidades)


Grande tradição (Peter Burke)


Tradição clássica (Obras clássicas da História Cultural Clássica)

A cultura do Renascimento na Itália (Jacob Burckhardt)

A História cultural da Grécia (Jacob Burckhardt)

Outono na Idade Média (Johan Huizinga)


* A História Cultural tem uma tradição que remonta ao século XIX

** Alguns autores consideram que a História Cultural se inicia nos anos 1980


O século XIX ficou conhecido como século dos metódicos, dos positivistas. Contudo, no século XIX, houve outras formas de fazer história, como o exemplo das obras citadas anteriormente.


História da Arte

A ética protestante e o espírito do capitalismo (Max Weber)

Norbert Elias

Arte e ilusão (Ernst H. Gombrich)


3ª fase

A historiografia britânica vai olhar para a historiografia de uma forma diferente da qual o marxismo olhava

Edward Palmer Thompson

Vem de uma tradição marxista, mas não adere cegamente a ela


4ª fase

História Cultural desdobrada da História das Mentalidades


***


Vainfas

Faz a crítica à História das Mentalidades

a História das Mentalidades buscava uma unidade de ideias da sociedade em detrimento de uma pluralidade de um sistema de crenças e racionalidades

A História das Mentalidades não permite compreender a divisão existente no interior das sociedade, compreender as contradições sociais

A contradição é fundamental para o estudo da história

A História das Mentalidades abandona o indivíduo, considera-se a coletividade e abandonam-se as contradições


Para compreender a História das Mentalidades 

- Contextualização da História das Mentalidades 

- Conceitos da História das Mentalidades

- Antecessora da História Cultural

- A História das Mentalidades e a História Cultural fazem parte da historiografia brasileira


Escola dos Annales


As mentalidades se fizeram presente em toda a Escola dos Annales, ainda que com ênfases distintas.


1ª fase 1929/1947 - Lucien Febvre e Marc Bloch

- incorporam métodos das Ciências Sociais à pesquisa histórica

- substituem o estudo de acontecimentos por processos mais longos

- privilegiam a pluridisciplinariedade

- objeto fundamental: civilização e as mentalidades

- história problema

- abertura para documento não escritos

- maior crítica aos documentos históricos

- preocupação com a massa anônima

- história total


Diferença entre a História dos Annales e a História Marxista

- História dos Annales: focaliza mais as ideologias e as mentalidades, ainda que também pensem as questões econômicas

- História Marxista: focaliza o econômico


2ª fase (1947/1969) Braudel

Temporalidade

Tempo longo - estrutura social vigente 

Tempo médio - conjunturas sociais, econômicas, sociais

Tempo curto - tempo do acontecimento histórico

(Os historiadores interpretam os acontecimentos e o transformam em fatos)

Percebe-se uma ênfase ao aspecto econômico


3ª fase (1969/2000 - período em que o texto foi escrito) - Jacques Le Goff


Retomada da ênfase nas mentalidades

os historiadores estavam saindo do porão e indo para o sótão

(crítica ao marxismo)

busca pelas mentalidades e não a ênfase ao aspecto econômico

crítica de Vainfas

A História das Mentalidades estava fazendo uma micro-história e abandonando a história total

É preciso ir além e buscar uma base mais sólida para a História das Mentalidades

Mentalidades estão correndo na França

New Left está correndo na Grã-Bretanha


Vainfas

Possíveis formas de compreender o campo teórico das mentalidades

- descolar as mentalidades da prática econômica

- compreender os fenômenos humanos ao longo do tempo

- história interdisciplinar


Novo plano conceitual para as mentalidades

- recorte social das mentalidades (tão amplo que dilui as diferenças, falta espaço para as contradições / patrício e plebeu na mesma mentalidade (problemático)

- inconsciente coletivo 

- tempo das mentalidades (longa duração)

Crítica de Le Goff: o marxismo não teve êxito em passar da infraestrutura para a superestrutura

Para Vainfas, fica evidente a dificuldade de se conceituar "mentalidades"


Temáticas preferenciais das mentalidades:

- religiosidade

- sexualidade e suas representações

- sentimentos coletivos

- vida cotidiana


3 possibilidades de estudo das mentalidades

- herdeira dos Annales

- marxista

- mentalidade de alguma coisa (beijar...)


Passagem da História das Mentalidades à História Cultural

1980 - declínio das mentalidades

surgem outros campos de estudo, herdeiros das mentalidades

- história da vida privada

- micro-história italiana

- história cultural


a História Cultural se apresentava em 1980 como uma forma de corrigir as imperfeiçoes da História das Mentalidades

- rejeição ao conceito de mentalidades

- relação entre o mental e o social

- Nova História Cultural (recusa em separar o erudito do popular - circularidade cultural)

- conflitos sociais

- história plural


3 maneiras distintas de se apresentar a História Cultural

Carlo Ginzburg - circularidade cultural

Roger Chartier

Edward Palmer Tompson


Como isso chega ao Brasil

tardiamente - mentalidades 1980

precursores: Sérgio Buarque de Holanda / Gilberto Freire



10/01/2022


Introdução à Nova História Cultura


Vídeo: Introdução à Nova História Cultural

Professor Dr. Julierme Sebastião Morais Souza (UEG)


Anotações


Nova História Cultural – expressão difundida a partir dos anos 80 

Panamense Lynn Hunt – historiadora – ficou conhecida por difundir a expressão "Nova História Cultural" (Obra: A Nova História Cultural, publicada em 1989 no Brasil)

Problemas – Lynn Hunt: colocava diversos autores no mesmo “balaio”

 

Livro: O que é a Nova História Cultural – Peter Burke

4 momentos

História Cultural Clássica – 1800/1950

História Social da Arte – 1930

História da Cultura Popular – 1960

Nova História Cultural – 1980 (desdobrada da História das Mentalidades)

 

Historiografia Francesa

1970 – Nova História

Novas formas de pensar a história

Discussão de mentes – discussão das culturas

 

Burke

Dois caminhos para compreender a Nova História Cultural:

- herdeira e questionadora da História Cultural Clássica

herdeira da História da Cultura Popular (1960) –  de uma historiografia das mentalidades


Nova visão de cultura

1. Abandona-se a concepção marxista de que cultura é reflexo da superestrutura

Relações econômicas na base e relações culturais no alto da pirâmide

Marxismo britânico (New Left): Passa-se a ver uma relação entre a base e o ápice da pirâmide, a relação entre questões econômicas e culturais

A cultura já não é mais deslocada da economia, mas está relacionada a ela


2.  Cultura não é mais a manifestação do espírito humano, das elites

Antes: cultura é o que vem da elite (cultura erudita é cultura, o restante é folclore)

Cultura é tudo, não é apenas a manifestação da elite

Cultura não é só cultura de elite

 

3. Separação: cultura erudita, cultura popular, folclore

Cultura erudita e cultura popular se inter-relacionam

Circularidade cultural

Ginzburg: estuda o popular para para chegar ao erudito (O queijo e os vermes)

Bakhtin: estuda o erudito para compreender o popular (Rabelais)

 

Passa-se da discussão da cultura como um dos elementos da sociedade para se pensar a cultura em relação com a sociedade

Mudança significativa do conceito de cultura

Uma visão mais ligada à antropologia

A partir disso a Nova História Cultural toma fôlego para ser desenvolvida, sobretudo com base no par práticas e representações


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Leitura de tese

Leitura da tese "Representações de educação em livros de histórias de cidades mineiras (1910-1971)", de  Fernanda Mendes   Resende...